21 de fevereiro de 2024

Foz do Iguaçu ganha espaço modelo para o tratamento de crianças e adolescentes envolvidos com drogas

O Complexo Terapêutico Padre Arturo Paoli irá usar práticas como acupuntura, constelação familiar e florais para tratar causas da dependência química; atendimento será pelo SUS

FOZ DO IGUAÇU GANHA ESPAÇO-MODELO PARA TRATAR CRIANÇAS E ADOLESCENTES ENVOLVIDOS COM DROGAS

“Crianças e adolescentes usam drogas, muitas vezes, para se anestesiar e fugir de uma dor muito grande”. A frase da terapeuta Larissa Morais conduz à essência do que será o atendimento prestado no Complexo Terapêutico Infantojuvenil Padre Arturo Paoli. A inauguração está marcada para a próxima quarta-feira (26), às 9h, no Conjunto Habitacional Bubas.

O espaço aliará o tratamento tradicional à práticas integrativas como acupuntura, auriculoterapia, yoga e constelação familiar. Tudo oferecido pelo Sistema Único de Saúde (SUS). A proposta desafiadora promete se tornar referência no Brasil.

A infraestrutura também é modelo: tem área administrativa, auditório, salas de atendimento, espaço para oficinas de arte e artesanato, cozinha industrial e uma ala onde funciona uma casa onde os acolhidos moram por até seis meses.

Essa ala é a Unidade de Atendimento Infantojuvenil Ana Lapinni (UAI), já em funcionamento, que compõe o complexo. Há quartos, banheiros, sala, cozinha e espaço de estudos.

São 10 vagas para crianças a partir de 10 anos até adolescentes que não completaram 18 anos, de todos os gêneros, e que vivem em situação de uso, abuso ou dependência química. “Eles chegam até aqui a partir de encaminhamento feito pelo Centro de Atenção Psicossocial InfantoJuvenil (CAPSi) e todo o atendimento é de graça”, explica Cláudia dos Santos, coordenadora do complexo.

Isso inclui as Práticas Integrativas e Complementares em Saúde (PICS) que são oferecidas por meio de uma política nacional que contempla mais de 3 mil municípios brasileiros, incluindo Foz do Iguaçu.

O grande diferencial é que, no Complexo Terapêutico Padre Arturo Paoli, haverá uma terapeuta responsável por todo o ciclo de atendimento, reunindo as terapias que julgar necessárias para cada caso.

A origem dos recursos é o Fundo Municipal de Saúde e o pagamento é feito pela AFA ao profissional contratado. Na rede pública de saúde é preciso agendar cada atendimento de forma individual.

O adolescente Mateus Gonçalves, de 16 anos, é um dos primeiros atendidos pelo novo modelo. Ele já fez sessões de acupuntura e auriculoterapia. Também está tomando florais para controlar a ansiedade. “Foi uma nova porta que se abriu para nossa fronteira,” considerou, “porque aqui não vai ser uma casa de reabilitação qualquer, vai ser outro patamar.”

Investimento
O custo da infraestrutura completa é estimado em R$ 5 milhões. Por meio de convênio com a Prefeitura de Foz do Iguaçu e a partir de recursos destinados por emendas da Câmara de Vereadores foi possível chegar ao valor de R$ 2,6 milhões, além de cerca de R$ 400 mil destinados pela Justiça Federal e pela Receita Federal.

O restante do valor está previsto para ser captado por meio de um convênio com a Itaipu Binacional, o que vai possibilitar a construção de um novo espaço com quadra coberta e academia para atividades esportivas.

Homenagem
O complexo servirá, ainda, como espaço de formação para qualificação dos profissionais que atuam na área da saúde mental e que estejam envolvidos com a temática das drogas.

O nome do auditório será “Dr. José Elias Aiex Neto”, uma homenagem ao médico que atuou 30 anos na área de saúde mental do município. Feliz com o reconhecimento, ele declarou: “As pessoas irão entender que esse é o modelo pelo qual eu lutei”.

O primeiro evento de formação no auditório ocorrerá no mesmo dia da inauguração do complexo, quarta-feira (26), a partir das 13h. O II Seminário de Capacitação e Atualização da Rede de Atendimento Psicossocial de Foz do Iguaçu terá cinco palestras com temas variados: uso de drogas, uso de cigarros eletrônicos, importância da afetividade na saúde mental, práticas integrativas e autismo avançado.

Propósito
O Complexo Terapêutico Infantojuvenil foi construído num terreno que pertencia ao padre italiano Arturo Paoli, imóvel adquirido com doações de amigos que partilhavam do propósito de vida dele. Padre Arturo foi um missionário que viveu em vários países da América Latina e morou, por 25 anos, no Brasil.

Ele era um intelectual renomado, escreveu vários livros, mas o maior legado foi o exemplo de luta pela inclusão das pessoas marginalizadas e injustiçadas: os “invisíveis sociais”.

A chegada a Foz do Iguaçu foi em 1987, a convite do bispo de então Dom Olívio Aurélio Fazza. Sensibilizado pela condição de extrema pobreza das pessoas da região do Porto Meira, fundou a Associação Fraternidade e Aliança (AFA), organização que busca dar dignidade à população excluída.

A casa onde ele viveu por muitos anos fica ao lado do Complexo Terapêutico Infantojuvenil Padre Arturo Paoli e é preservada como espaço de memória. Padre Arturo faleceu em 2015, na cidade natal de Luca, na Itália, aos 102 anos.

Atualmente a AFA é coordenada por duas religiosas que conviveram com Arturo Paoli, em Foz do Iguaçu: Idalina Barbosa (presidente) e Filomena Rubano (vice-presidente). “Nós sabemos que essa iniciativa gera impacto”, admite Idalina Barbosa, “porque algumas pessoas pensam que esses projetos não são para pobres, porém acreditamos que eles têm direito como todo mundo”.

Para Filomena Rubano, o complexo representa a essência de padre Arturo, porque “ele nunca desvalorizou uma pessoa que tem problemas com droga por acreditar que isso é resultado de uma grande injustiça social”.

Fotos: Divulgação AFA