17 de julho de 2024

Com alta da inflação, consumo de carne na Argentina caiu 16%



Famosos pelas churrascarias, vastas fazendas de gado, churrascos e pela parrilla, os argentinos estão consumindo menos carne do que nunca, forçados a apertar os cintos pela inflação de três dígitos e por uma recessão. 

O consumo de carne caiu quase 16% neste ano até agora no país sul-americano, onde sempre foi uma parte essencial do tecido social, ao lado do futebol e do mate. 

Muitas casas argentinas têm churrasqueiras em torno das quais as famílias se reúnem. Churrascarias estão espalhadas por Buenos Aires e as pessoas se juntam em churrasqueiras improvisadas para saborear a carne, mesmo em canteiros de obras ou protestos. 

“Carne é uma parte integral da dieta argentina, é como se a massa desaparecesse para os italianos”, disse a aposentada Claudia San Martín, de 66 anos, à Reuters, na fila de um açougue.

Ela disse estar disposta a fazer cortes em outras compras, como produtos de limpeza, mas a carne é sagrada. 

“Os argentinos podem eliminar qualquer coisa, eu acho, em momentos de dificuldade como este. Mas não podemos ficar sem carne”, afirmou. 

Mesmo assim, dados mais recentes mostram que os argentinos neste ano estão comendo carne em uma taxa de cerca de 44 kg por ano, uma queda brusca de mais de 52 kg no ano passado e até 100 kg por ano na década de 1950. 

Parte do declínio ao longo das décadas resulta de uma mudança de longo prazo para outras carnes, como porco e frango, além de produtos básicos mais baratos, como massas. Mas a queda deste ano foi impulsionada por uma inflação de quase 300% e uma economia estagnada, além das duras medidas de austeridade do presidente libertário Javier Milei. 

A pobreza cresce, mais pessoas estão desabrigadas em grandes cidades e as filas aumentaram em refeitórios. Muitas famílias reduziram o consumo de produtos como carne, leite e vegetais. E dizem que ainda não conseguiram sentir os benefícios da desaceleração da inflação mensal. 

“A situação neste momento é crítica. O consumidor está tomando decisões pensando apenas em seus bolsos”, disse Miguel Schiariti, presidente da câmara local de carnes, CICCRA, cuja expectativa é que o consumo de carne continue baixo. “O poder de compra das pessoas está enfraquecendo mês a mês”, lamenta.

Menos carne, mais massa

Nas terras agrícolas da província de Buenos Aires, criadores de gado estão sentindo o impacto. 

“A queda em consumo é preocupante”, afirmou Luis Marchi, de 48 anos, engenheiro agrícola e terceira geração no comando do negócio da família, que produz grãos e gado. 

“O consumo de carne está caindo bastante recentemente”, acrescentou, culpando a inflação e a crise econômica.

“Os consumidores tentam substituir bifes com alimentos mais baratos, outros tipos de carne ou massa.” 

Com a queda do consumo local, as exportações cresceram, mas preços globais menores reduziram esse benefício aos agricultores. De longe, a principal compradora de carne argentina é a China, embora importe cortes mais baratos que não são utilizados domesticamente. 

“O setor de exportação está passando por um momento muito difícil, embora continue exportando em grandes volumes. Os preços do mercado internacional caíram muito”, disse Schiariti. 

Cortes mais baratos

Em seu açougue em Buenos Aires, onde trabalha há 40 anos, Gerardo Tomsin, de 61 anos, disse que as pessoas ainda compram carne bovina, mas estão sempre em busca de ofertas mais baratas.

“As pessoas continuam vindo, o problema é que elas consomem menos. Há pessoas que recorrem a outros produtos. É uma busca permanente por preços”, disse ele.

Outro açougueiro, Dario Barrandeguy, de 76 anos, disse que as pessoas estão comprando os cortes mais baratos de carne bovina ou outras carnes mais baratas.

“O consumo de frango e carne de porco aumentou muito recentemente”, disse.

Milei, um economista de livre mercado que se autodenomina anarcocapitalista, pôs fim ao congelamento dos preços da carne bovina pelo governo peronista anterior.

“As coisas se tornaram muito caras e, quando são tão caras, simplesmente não compramos”, disse Facundo Reinal, professor de 41 anos, acrescentando que isso significa passar menos tempo socializando ao redor da churrasqueira

“Estamos vendo que, em geral, as pessoas estão fazendo menos churrascos, o que é uma parte fundamental da cultura aqui na Argentina.”

É proibida a reprodução deste conteúdo