27 de janeiro de 2026

Parque Nacional da Tijuca recebe primeira soltura de araras-canindés

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A plumagem colorida das araras-canindés voltou ao céu da cidade do Rio de Janeiro com a realização da primeira soltura da espécie na capital fluminense, onde ela era considerada extinta.

Foi no início deste mês de janeiro que a organização da sociedade civil Refauna, com apoio do Instituto Chico Mendes de Conservação da Biodiversidade (ICMBio), libertou três fêmeas da espécie, que receberam os nomes de Fernanda, Suely e Fátima. Os pássaros foram reintroduzidos no Parque Nacional da Tijuca.

“Não tem mais população de araras-canindés [no Rio]”, disse à Agência Brasil a bióloga do Refauna e coordenadora de reintrodução das araras, Lara Renzeti. “Essa foi a primeira e, até agora, a única soltura dessa espécie de aves no Rio de Janeiro”.

O nome Fernanda foi escolhido para homenagear a atriz Fernanda Torres, que estrelou o premiado filme Ainda Estou Aqui. Já Fátima era a personagem dela no seriado Tapas e Beijos, em que Andréa Beltrão interpretava sua parceira Suely.

As aves vieram do Parque Três Pescadores, localizado em Aparecida, no interior de São Paulo, onde fica o Refúgio das Aves, centro de acolhimento e reabilitação de animais silvestres que não apresentam comportamento de domesticação.

Uma quarta arara também seria liberada, mas precisou de mais tempo sob cuidado especializado. Chamado de Selton, em homenagem ao ator Selton Mello, que interpretou Rubens Paiva no filme premiado, o exemplar macho que fazia parte do grupo não pôde passar pela aclimatação necessária para a soltura porque ainda se recupera de uma infecção pulmonar não contagiosa. A medicação usada no tratamento enfraqueceu as penas das asas de Selton, que terá de aguardar a criação de novas penas para poder voltar a voar.

Com isso, Selton deverá aguardar a chegada de novo grupo de quatro ou seis novas araras-canindés, para passar pelo processo de aclimatação e posterior soltura.

Lara Renzeti acredita que o novo grupo deverá chegar ao Parque Nacional da Tijuca por volta de março próximo e, após um período de quatro a seis meses, as araras-canindés deverão estar aptas para serem soltas entre agosto e setembro deste ano.

No primeiro grupo, o treinamento atrasou sete meses, devido ao problema de saúde de Selton.

As novas araras já têm possíveis ideias de nomes, mas eles serão divulgados posteriormente, disse a bióloga, que guardou segredo.

 


Rio de Janeiro (RJ), 27/01/2026 - A organização da sociedade civil brasileira (OSC) Refauna realizou no início deste mês de janeiro, com apoio do Instituto Chico Mendes de Conservação da Biodiversidade (ICMBio), a primeira soltura de araras-canindé, consideradas extintas da Mata Atlântica. Foto: Flavia Zagury/Refauna
Rio de Janeiro (RJ), 27/01/2026 - A organização da sociedade civil brasileira (OSC) Refauna realizou no início deste mês de janeiro, com apoio do Instituto Chico Mendes de Conservação da Biodiversidade (ICMBio), a primeira soltura de araras-canindé, consideradas extintas da Mata Atlântica. Foto: Flavia Zagury/Refauna

 Refauna realizou no início deste mês de janeiro, com apoio do Instituto Chico Mendes de Conservação da Biodiversidade (ICMBio), a primeira soltura de araras-canindés no Rio. Foto: Flavia Zagury/Refauna

Aclimatação

As araras-canindés chegaram ao Parque Nacional da Tijuca em junho de 2025, onde ficaram abrigadas em um recinto dentro da floresta, para que pudessem se acostumar aos sons e aos cheiros de sua nova casa.

“E a gente começa a ensinar a elas algumas coisas, como treinamento de voo que, além de facilitar que a gente consiga manejá-las, é como se fosse um exercício diário que elas fazem para ter musculatura peitoral que precisam para o voo e um condicionamento bom”, informou Lara.

A equipe do Refauna também tenta repreender comportamentos inadequados, como se aproximar das pessoas ou descer muito para o chão. As araras são submetidas ainda a uma transição alimentar, uma vez que vêm de zoológico onde são alimentadas com frutas comerciais e ração. No Parque Nacional da Tijuca, elas aprendem a comer frutas que irão encontrar na floresta, como jabuticabas, por exemplo.

“Como estão dentro de um recinto, é preciso alimentá-las todos os dias. Aclimatação é assim: a gente vai oferecendo frutas nativas, vendo como elas interagem com esses frutos”.

A comida é oferecida em plataformas suspensas, para que as araras não a associem diretamente aos integrantes do Refauna.

“Não se pode alimentá-las na mão, por exemplo. É sempre nessas plataformas suspensas, porque elas precisam voar para chegar até a comida, para que haja esse distanciamento”, explicou a coordenadora.

O recinto em que as araras passam pela aclimatação tem 20 metros de comprimento, tamanho que Lara Renzeti considera suficiente para que a equipe consiga direcionar seu voo.

“Elas conseguem voar de uma ponta a outra do recinto, e a gente viu que isso funcionou muito bem, porque quando a gente abriu a porta, elas conseguiram fazer voos de cinco quilômetros (km), de 10 km. Realmente, fazendo aqueles exercícios diários, isso é suficiente para elas terem a musculatura fortalecida, mesmo em um ambiente menor”.

 


Rio de Janeiro - Cristo Redentor visto do Parque Nacional da Tijuca, durante mutirão de plantio de mudas de espécies nativas na nascente do Rio Carioca (Fernando Frazão/Agência Brasil)
Rio de Janeiro - Cristo Redentor visto do Parque Nacional da Tijuca, durante mutirão de plantio de mudas de espécies nativas na nascente do Rio Carioca (Fernando Frazão/Agência Brasil)

Cristo Redentor visto do Parque Nacional da Tijuca, durante mutirão de plantio de mudas de espécies nativas na nascente do Rio Carioca Foto: Fernando Frazão/Agência Brasil

Monitoramento

Uma vez soltas, as aves continuam a ser acompanhadas pelo Refauna, que realiza intervenções quando necessárias.

“Nessa primeira fase, é muito comum que a gente precise recapturá-las, porque são uma espécie muito inteligente, que depende muito do aprendizado. E como é um ambiente novo, pode ser necessário que o mesmo indivíduo seja recapturado e solto de novo em outro momento. A gente tem sempre que avaliar essa necessidade”.

A recaptura também pode ocorrer caso as araras sejam colocadas em risco. Como são animais resgatados, elas podem se aproximar das pessoas, pousando em árvores ou telhados, por exemplo, em busca de comida.

“Nem todo mundo é bem-intencionado e, muitas vezes, o que elas sabem é procurar comida com as pessoas. A gente tem que ficar de olho para saber se elas estão conseguindo se alimentar por conta própria e isso pode demorar um tempo. Elas têm que procurar comida”.

A equipe do Refauna continua a oferecer comida suplementar, nas mesmas bandejas suspensas que as aves tinham no recinto de aclimatação. “Quando a gente abre a porta, tudo pode acontecer. Pode demorar um tempo até que os animais aprendam a procurar e a encontrar comida. A gente monitora também para fazer essas intervenções”.

A população também pode ajudar com informações ao Refauna. As araras foram liberadas com anilhas, microchips e colares de identificação, sendo monitoradas pela equipe de biólogos, e o monitoramento em vida livre se dará também a partir dos relatos e informações enviadas pela sociedade.

A participação ativa de pessoas é conhecida como Ciência Cidadã e pode ser exercida por qualquer um que tenha interesse em contribuir, enviando informações para o Instagram do Refauna ou para o Whatsapp (21 969744752). O objetivo é facilitar o contato direto com moradores do entorno do parque.

“A população tem ajudado. Eles avisam mesmo. O Ciência Cidadã é um método que está funcionando muito bem”, confirmou Lara.

Outro sistema que está funcionando bem para o monitoramento participativo é o SISS-Geo. Trata-se de um aplicativo gratuito de registro da fauna silvestre, desenvolvido pela Fundação Oswaldo Cruz (Fiocruz). Nele, é possível enviar fotos e informações quando uma das araras for avistada. “Não é um aplicativo voltado para o Refauna, mas é uma ferramenta que a gente pode usar para saber onde estão os indivíduos”.

A analista ambiental do ICMBio, Viviane Lasmar, chefe do Parque Nacional da Tijuca, comentou à Agência Brasil sobre a importância da educação ambiental para as pessoas que moram no entorno ou que visitam os parques nacionais.

“As pessoas têm se aproximado cada vez mais. Essa é uma boa hora mesmo para ver se a gente consegue contribuir um pouco para diminuir a ignorância ambiental”.

 


Oito cutias são soltas no Parque Nacional da Tijuca. A espécie foi escolhida por ser nativa e uma importante dispersora de sementes. O animal chega a enterrar os grãos para consumir depois, favorecendo a restauração florestal.
Oito cutias são soltas no Parque Nacional da Tijuca. A espécie foi escolhida por ser nativa e uma importante dispersora de sementes. O animal chega a enterrar os grãos para consumir depois, favorecendo a restauração florestal.

 Parque Nacional da Tijuca, na cidade do Rio de Janeiro Foto:Tânia Rêgo/Agência Brasil

Cursos

Outra iniciativa para proteger as aves é a realização de cursos de formação com guias que atuam no Parque Nacional da Tijuca, para que possam mostrar às pessoas a forma correta de interagir com os animais presentes no local. O projeto ainda está sendo desenvolvido pelo Refauna.

“Os guias de turismo são importantes, porque estão em contato com muitas pessoas diferentes. Então, é fundamental que a gente consiga esse diálogo”, disse Viviane. “O que fazer quando se vê um animal desses? Não pode alimentar, não pode ficar falando com o bicho. Vai ser uma forma de a gente divulgar a conduta responsável em encontros com esses animais”.

Viviane Lasmar acrescentou ainda que não só foi um grande prazer receber as araras-canindés como um fato que demonstra a relevância do trabalho do ICMBio de manter o parque conservado para o incremento da biodiversidade.

“É sinal de que a floresta está bem para as nossas araras”, comemorou. “A gente pensa no parque nacional e pensa logo no Cristo Redentor, no turismo. Mas a [Floresta da] Tijuca é muito mais do que isso”.

Além de receber as aves no habtat preservado, o papel do Parque Nacional da Tijuca é também apoiar na infraestrutura, colaborando com a construção dos viveiros, por exemplo, para a colocação dos ninhos das araras, já tentando antever alguma possibilidade de aninhagem futura.

O transporte dos animais também é feito por técnicos e monitores ambientais do parque, que dão apoio em qualquer estrutura que for necessária.

“A gente está se preparando para receber de braços abertos esse novo grupo de araras-canindés”, disse Viviane.

Meta

A meta do Refauna é, no período de cinco anos, soltar 50 indivíduos da espécie arara-canindé, liberando dez por ano. Lara Renzeti conta que “a reintrodução não é uma ciência exata” e que nem todas essas aves realmente vão povoar o parque. 

“Eu gostaria de soltar mais, porque não necessariamente esses dez vão se estabelecer. É uma probabilidade. Quanto mais indivíduos a gente conseguir soltar ao mesmo tempo, maiores são as chances de um ou dois se estabelecerem e se reproduzirem. A ideia é conseguir soltar mais araras-canindés para aumentar as chances de elas se encontrarem e interagirem bem com a floresta e se reproduzirem”, comentou.

Globalmente, a arara-canindé não é considerada em extinção, mas, no estado do Rio de Janeiro, já não se vê mais população dessa espécie, como ocorria em toda a área litorânea da Mata Atlântica, onde há registros históricos muito antigos, datados do Século 16, em muitas localidades, informou Lara Renzeti.

“É uma espécie extinta no estado do Rio de Janeiro. É uma ameaça mais regional. Já no interior do Brasil, no Cerrado, por exemplo, ela é muito comum”.

 


Arara-canindé
Arara-canindé

Arara-canindé no Cerrado, por Fabio Rodrigues Pozzebom/Agência Brasil

Restauração ecológica

Desde 2010, o Refauna já reintroduziu várias espécies, entre as quais a cutia-vermelha, o jabuti-tinga e o bugio-ruivo, no Parque Nacional da Tijuca; e a anta, no Mosaico Central Fluminense — na Reserva Ecológica de Guapiaçu e no Parque Estadual dos Três Picos (RJ). 

O projeto responde a um desafio global da conservação: o combate à defaunação, caracterizada pela perda de espécies animais. Estudos mostram que cerca de 90% das espécies de plantas da Mata Atlântica dependem de animais para espalhar suas sementes. Quando uma floresta perde sua fauna, ela também perde, aos poucos, a capacidade de se regenerar. A ausência de dispersores compromete a manutenção das florestas e o funcionamento do ecossistema, mesmo em áreas protegidas, alerta o Refauna.

O cenário é especialmente preocupante na Mata Atlântica. Dados do IBGE de 2023 revelam que 43% da fauna ameaçada de extinção no Brasil é exclusiva desse bioma, que concentra o maior número de espécies ameaçadas do país. O Refauna reforça que quando uma espécie é extinta, “não é só ela que desaparece; todo um ciclo de vida se desfaz”.